quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sonhos

Ah, os sonhos. E quando a gente sabe que é a hora de parar?

A resposta certa é, ou deveria ser, nunca. Se sonhos são sonhos, nunca é a hora de parar, mas, acredito, sempre deve haver a pergunta. Ou não.

Não sei. Eu falo no abstrato, coletivo, mas estou mesmo é falando do concreto, do individual. Não adianta mentir e tentar ser tão medíocre quantos os outros: eu nada sei sobre OS sonhos. Eu só sei sobre o meu sonho. E o meu sonho é ser médica.

Eu sonho em ser médica desde, sei lá, desde que eu descobri que era isso que eu realmente queria depois de querer ser tantas outras coisas. Isso foi há mais ou menos uns 8 ou 10 anos atrás. Eu sonho em ser médica porque não vejo outra profissão que nos impede de se acomodar, que é sempre desafio e que transforma o mundo num lugar melhor. Vejo na medicina um dos poucos trabalhos em que se pode fazer o bem remuneradamente sem se sentir mal por isso. Ser médica preenche tantas aspirações do meu ser, que qualquer outra profissão, aos meus olhos parecem a roupa errada pra mim. Porque eu acredito no bem, acredito na arte e acredito na ciência. Que mais me traria o pacote completo assim?

O problema, e problema não é a palavra certa, é que eu gosto tanto de tantas outras coisas! Ah, como eu gosto de filosofia, história, cinema, tecnologia da informação. Eu AMO informação. Informação e informática. Processamento de dados, planilhas, tabelas, administração. Tenho um prazer quase sexual em identificar o cerne da questão e me ater a ele. Se a discussão é sobre o aspecto x do conceito de liberdade, eu tenho vontade de esmagar a cabeça de quem quer falar sobre religião no meio do caminho. Eu gosto de estudar, ouvir, aprender, desaprender, sentir e racionalizar a beleza. E, claro, eu também gosto muito, muito mesmo, de química e biologia. Adoro entender como funciona este ou aquele gen, como a doença x se apodera do organismo, qual o efeito desta ou daquele substância. Eu gosto de ambas as coisas, e tenho consciência de que se pareço ter mais fervor quando falo de TI e filosofia, é pelo simples fato de que estudei mais tais áreas e, por isso mesmo, navego um pouco menos desconfortavelmente por elas.

E por que eu pergunto sobre sonhos e sobre a hora de parar? Por que eu desanimo. Eu desanimo ao perceber que a pequena ponte que me leva à estrada que conduz à profissão de médico exige de mim tão pouco perto do que terei que dar, e mesmo assim, eu não avanço. Desanimo porque me sinto velha, porque percebo que isso é tão necessário quanto não tem necessidade nenhuma, porque não me vejo progredir, porque me sinto capaz de tantas outras coisas grandes e incapaz para algo tão pequeno como sentar e estudar algo que não se quer, mas se precisa.

Não sei. O post de hoje não é um texto como deveria ser (à imagem dos 56 dias já passados em 2010). Não tem a estrutura que se espera. Este post nada mais é um desabafo. Porque eu penso em tudo que eu poderia ser, fingindo não entender porque eu ainda não sou. E porque eu percebo que tenho uma certa inveja do que eu fui e da promessa que eu sou.

Inveja e saudade.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Campus Party Brasil 2010


Algo que aprendi neste ano: a percepção objetiva de um evento qualquer é algo extremamente raro e particularmente difícil. Em termos objetivos, é meio difícil discordar da opinião corrente de que a Campus Party do ano passado estava muito melhor que esta. A arena era mais dinâmica, as palestras eram mais técnicas, os debates eram mais profundos, para não dizer acalorados. A distribuição de brindes, ainda que abundante não foi, de forma alguma, o principal foco do evente. Isso sem falar na comida, que além de boa, ainda variava todos os dias.

Mas em termos subjetivos, a avaliação é bem diferente. Para mim, esta foi a mellhor Campus Party de que participei!!! O que, convenhamos, é como as coisas devem ser: cada vez melhores. Em 2009 eu vim mergulhada em ansiedade, direto de uma "normalidade" atribulada, completamente despreparada e (não encontro o adverbio de intensidade adequeado) sozinha. Pra se ter uma idéia, eu saí direto do hospital pra Campus, com o computador completamente desorganizado, as malas feitas às pressas. Cheguei no momento exato da abertura, dormi dois dias no chão por não ter conseguido encher o colchão e passei uns três ou quatro dias me sentindo incapaz. A frustração frente a ansiedade quase arruinou a experiência. Mas, como eu disse antes, a experiência foi realmente muito boa, e a sensação teve que ficar quietinha na dela.

2010, a história é outra. Hoje eu me encontro em pleno retorno de saturno, vim descansada, com as malas prontas, o computador pronto pra guerra, tinha pessoas pra encontrar e, o mais importante e mágico de tudo: sem ansiedade. Não dá pra explicar, verdade que não dormi direito na véspera, mas não cheguei babando, e isso ajudou muito.

Sobre o evento há muita coisa o que pensar e muito a realizar. Não vou prometer blogs e flogs porque ano passado isso deu azar. Vou me empenhar, claro, mas sem perder o foco no vestibular, quest de 2010. Como consegui fazer a programação antes e foquei em curtir o evento e não em caçar brindes, posso dizer que aproveitei muito. Aproveitaria muito mais se eu não tivesse aquele pequeno probleminha crônico de não parar quando eu sei que devo parar. Parar de ficar nerdando para ir dormir, parar de dormir para ir às palestras, etc etc etc.

Ainda assim, julgo que aproveitei a festa. Uma mistura de ócio, com liberdade e integração. Forno e fornalha para a criatividade. Comida para o cérebro. E descanso para a vida continuar mais e melhor.

Há claro, muito mais a dizer. O clima de acampamento, os debates sobre o cotidiano blogueiro, a convivência com a tecnologia, o conhecimento aliado ao gosto gerando competências. Mas fica para depois, pra uma tarde dessas dem dormidas, depois de um bom banho, num lugar calmo, morno e silencioso.


FOI - VAI - VEM - ESTÁ


O bom de ter um blog pessoal é que podemos dar vazão aos transtornos obssessivos compulsivos, praticar certos rituais sem sentidos e dar explicações completamente desnecessárias simplesmente por uma necessidade mental injustificada.

Isto posto, fato é que ficaram por publicar três posts rituais. O que foi, o que vem e o que está. Tipo os três espíritos do natal.

Mais isto posto, segue, mas não bem nessa ordem. O primeiro, a retrospectiva 2009, livremente copiado de um e-mail, e que muito provavelmente estará no http://unpocosolas.blogs.sapo.pt/ um dia também, virá logo depois do terceiro. O segundo, o cláaaaassico metas 2010, virá depois do primeiro, tendo sido escrito no conforto felino e aquecido do meu lar.

E por fim, o terceiro, virá primeiro. Porque, apesar do passado e do futuro, eu estou aqui e agora: na Campus Party Brasil 2010.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Blog dos Outros

http://ansia2.blogspot.com

Então a Julie me mandou um link para a entrevista de uma moça que publica fotos graciosíssimas e desenhos interessantes no Flickr. Fui lá ver e me deparei com um blog bem interessante. Aí vc me fala, então porque vc simplesmente não segue o dito cujo?

Talvez eu siga, não sei. Tem coisas superlegais, como o contador de animais abatidos, e idéias com as quais simpatizo profundamente. Feminismo, ativismo. Tudo redigido de forma solta e muito gostosa. Isso sem falar na minha mais profunda admiração por pessoas que fazem coisas em que acreditam. Por outro lado, a maior parte das expressões usadas lá eu nao tenho a menor idéia do que significa, e embora eu admire e simpatize com o movimento punk, riot girll e etc, não dá pra dizer que eu me identifico com tudo isso. Gosto da estética, da idéia, das influências e tal, mas, como já disse para a própria Julie uma vez, bandas de moças gritando não são muito bem a minha praia.

Talvez eu não siga,não sei. Mas não podia deixar passar em branco a visita que fiz ao Cabeça Tédio, e nem deixar de elogiar a entrevista simples e rica com a MAREN a.k.a. FRLZUCKER! publicada lá no dia 3 de dezembro.

Ao som dos sons do prédio e dos barulhos da cidade.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Coisas que se escreve por aí...

Às vezes sou acometida de uma vontade quase incontrolável de escrever. São coisas que sinto e se me aparecem em forma de frases piscantes em neon laranja dentro do cérebro. Dos felizes acasos da vida, ganhei um celular com teclado que se transforma em QWERTY e me deixa escrever a qualquer hora, de qualquer lugar. Ou quase, já que quem não tem dinheiro tem medo, e se me levam o pequeno Jet, nunca mais consigo comprar outro.

O caso é que agora, quando saio do cinema, do teatro ou volto de bons momentos entre amigos, os 15 minutos de metrô transformam-se em quase ou mais de 15 linhas frescas sobre o que sinto, ou penso, no momento. E já que ninguém vai mesmo lê-las, que não as leiam aqui:


A Descoberta

Entao, a gente pode fazer como se,fosse escrever um e-mail e escrever um texto pra gente mesmo e guardar. Texto, alias que pode vir a ser, de, fato, um e-mail, ainda que pra gente mesmo. Como se no fim a coisa, fosse o que é, independente de pra quê for.


Lua Nova - 24.11.09 00:00

Eu sinto falta de amar e percebo como a gente subestima a solidão. Se amar dói, a dor é quente, pungente, nos ocupa por inteiro. A dor se torna tudo, não parte. Colore tudo de preto, verde e cinza. Dói tanto que se quer mais dor, a alegria alheia repuguina. Mas o amor só em parte, ou só fim é dor. E se eu digo fim é porque não amo há tanto tempo que não sinto mais a eternidade dele. Eu penso que não morre nunca, mas sinto que muda. Que, de repente, de repente até demais, não se ama mais. Num único momento, tão preciso e memorável quanto o da descoberta do amor, se constata que não se ama mais. E então o sol que acendeu naquele dia se esconde, as cores perdem o brilho e a música pára de tocar. É o fim. Resta ainda algo de hábito e um pequeno interruptor. Mas a grande ópera chegou ao fim.

Cabe dizer que não foi aí minha grande dor. Isso foi a morte. O que me doeu foi morrer, a grande doença, o saber da morte. Claro, isso pra mim. Imagino que quando o amor morre de repntr deve ser uma dor do caralho. Como toda dor de amor.

Já a solidão, é diferente. Dói, mas é uma dor do cacete. Dói de forma cruel. Dói lento e sempre. Não te aquece, não te congela. Mas te deixa com um calor que enfraquece e com um frio que incomoda.



13.12.2009 00:51 Esclarecendo coisas

Uma coisa, pelo menos, deve ficar clara: o passado foi muito bom, mas não é tudo o que existe. Dormi pouco. Bebi muito, transei muito, aprendi muito, li muito, falei muito, ouvi muito. Amei pra caralho. Amei demais. Vivi. Foi ótimo e é passado.

Hoje as lembranças são boas, mas contar e ouvir as mesmas historias é desbotar o desgastado. Não tem o mesmo som, nem a mesma cor. Até lembrar não é mais a mesma coisa. O amor só mudou de cor, como diz a música, agora tá desbotado.

Se isso posto não o suficiente, vamos esclarecer certos pontos. Primeiro, eu não sou perfeita. Segundo, eu não sou idiota. Nunca fui nenhum dos dois, dificilmente serei. Terceiro, eu mudei, principalmente porque amadureci. Porque amar me fez crescer.

Há mais ainda o que acrescentar. Os meses, quase anos, em que passamos nos "amando" por todos os cantos da cidade, eu amava sincera, profunda e loucamente outra pessoa. Você foi a tentativa risível e infrutífera do meu corpo tentar esquecer o que não podia ter.

Sim, a quimica era boa. O menor canto de pele, o botão que só voce sabia apertar para ligar o circuito todo. Sim, eu gostava de você. Mas não desse jeito. Não como se fôssemos ou viéssemos a ser namorados, um casal.

E não, eu nunca te amei.

domingo, 29 de novembro de 2009

Danko, Dankemo.

Vai parecer triste mas não é. Eu sinto falta de uma religião nos melhores momentos da vida, não só nos piores. É nos ganhos, e não na perda, que eu mais queria ter fé.

Vou ser sincera. Quero que Deus exista, assim, com D maiúsculo. Quero que todas as coisas que o espiritismo diz que são, sejam mesmo. Quero que exista espítirito, colônia, energia, mentores. Quero que exista algo além da vida mundana e inexpressiva que vivemos. Quero que exista um objetivo no existir. Quero que exista "o além".

Quero que lá, no além, exista um cartório de registros. E que lá, no cartório de registro, conste no livro que eu agradeço profunda e sinceramente a noite maravilhosa que tive hoje. Conste também o amor e a gratidão indescritíveís que sinto pelo pai que tenho. Conste que quero ser feliz e realizada só pra que ele saiba e fique feliz com isso também. E que conste, para encarnações futuras, que eu não posso beber muito porque fico sentimental demais.

Sobrando espaço na folha minha sobre gratidão, quero também agradecer pelos meus gatos. É sorte demais ter um pai tão maravilhoso, a Mitsy tão, tão indescritível, o Morpheus tão carinhoso e a Agatha tão viva. É perfeito e eu agradeço, sem jamais abrir mão disso.

E existindo o além, parece posto que, sempre que se agradece, há que se pedir. Não deveria ser assim. No meu mundo perfeito, agradecer basta. E para mim basta. Mas, se há que se pedir, peço que eu sempre possa ver o necessário pra se manter tudo o que tenho. A única coisa que eu quero além é fazer algo pelo mundo. Fazer a minha parte. E se, por um acaso bizarro qualquer, a medicina não for o caminho, que algo ou alguém me possa desenhar qual é.

E se se pudesse pedir mais, eu gostaria de pedir o impossível. Pedir que meu pai nunca morra, que a Mitsy nunca me deixe sozinha. E que se isso não for possível, que partamos nós três no mesmo dia. Não sei como, não sei quando, mas que nenhum de nós venha a sentir a falta do outro.

Porque não seria algo possível de se aguentar.

Dankon Siñoro.


"Querido Deus,


Obrigada.

Seja Baco o arauto da minha gratidão, nem por isso menos sincera ela o é. Grata pelo bem que restou no mundo, grata por minha família, grata pelos meus gatinhos, grata pelos meus amigos. Obrigada, Deus, pelo meu pai que foi além da dor e da perda pelo meu futuro. Obrigada pelo futuro que hoje se torna presente, sem por isso extinguir-se em si. Obrigada pela vida. Perdão pelo desleixo e descaso com que deixo os dias se esvairem em rotina e mediocridade. Obrigada por tanto amar. Perdão por não amar mais. Grata por tanto amor. Perdão por não lembrar desse amor sempre. Perdão pela solidão e obrigada pela consciência.

Desejo sinceramente que o Senhor exista e que haja sentido e verdade quando eu digo: Obrigada, Senhor.

Um simples abraço,

Trinity Ohara"


(Porque São Francisco é foda!!!!)

"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa , que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna..."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Adios, Abuelito.


"É assim. Primeiro seu avô fica doente e todo mundo faz de tudo pra resolver a situação. Ele passa o Natal no hospital. Sai de lá no Ano Novo. Esperança. Mas nada se resolve e ele continua doente. Depois, ele tem um dia realmente ruim, com muita dor, fraqueza, desmaio, convulsões. Nesse dia vc chora no corredor do hospital porque acha que ele vai morrer ali, esperando atendimento e ninguém fazendo nada. Mas ele, mais que felizmente, não morre. Também não se cura. Num próximo dia, ele sente uma dor indescritível, daquela que remédio nenhum faz efeito. O médico dá um remédio muito, mas muito, forte. Você vê seu avô vomitando sangue e pensa que nada daquilo estaria acontecendo se vc tivesse estudado direito para o vestibular e já fosse médica. O médico, que estudou muito, chama os filhos e lhes diz que o câncer foi para os ossos e para o pulmão, que em dois, no máximo três, meses, ele já não estará mais ali. E que não há nada a fazer. Isso foi em março.

Então são dois meses em que não há limite para a dedicação. Todos se lembram do prazo e ninguém aceita o "nada a fazer". Ainda bem. Médicos, exames, consultas, remédios, brigas pelo melhor tratamento. Você vai lá quase todo final de semana, passa nervoso por não vê-lo melhorar. Dias ótimos de muita conversa e alguma risada, outros tristes de muito dormir e muito silêncio, dias de nada a fazer. Chega a Páscoa, a última grande festa. Dia de sol, cama no quintal. Passa a Páscoa, chega Corpus Christi. Os médicos estavam errados. Dúvidas.

Continua-se os médicos, os exames, os remédios. Novos sintomas, velhas doenças. Novas doenças, velhos sintomas. Corre-se, mas sem desespero. Quando e como saber se o melhor é o que fará o maior bem? Você sabe que as coisas estão erradas. Você não sabe o que nem como é o certo. Você se sente cansada. Já se foi metade do ano, o vô não melhora, não caminha reto para sair da cama. Vc se sente mal por não se sentir bem. Vc se culpa por não querer passar mais um final de semana lá. Vc começa a achar que está "perdendo" os finais de semana. Os temores nascem do cansaço e da solidão. Brigas, discussões, raiva. Não do seu avô, mas da vida. Vc começa a achar que a culpa é dele. Vc começa a achar que a culpa é sua. Vc começa a achar que todo mundo tem culpa. E ninguém tem, realmente, culpa.

Agosto, setembro. Ainda algum médico, muitos remédios. Exames atrasados. Agora uma enfermeira. De repente, uma melhora perceptível. Ele volta a te contar as velhas histórias. Você fica feliz e lembra o quanto gosta de ouvi-lo falar. Ele vai pro hospital. Trombose. Está doente mas está bem. Conversa até ficar rouco, troca experiências com o vizinho de quarto, faz exigências às enfermeiras. Acredita que muito em breve vai voltar a andar. Chora pro médico ao receber alta: queria sair de lá andando. Volta pra casa. Come favas, pede tremoço, ensina a neta do meio a torrar amendoim. Ela os queima, ele faz piada, descasca um a um pra ver qual se aproveita. Ensina de novo. Toma suco, pede a comida da vizinha que nunca cansa de mima-lo. Você se sente no auge do cansaço. Seu pai percebe. Tira férias pra ficar lá com ele e vc poder viver sua vida. Você se sente grata, marca mais médicos, cobra exames, controla remédios. Acredita que a situação está se estabilizando. Mais uma ou duas consultas e ele fará fisioterapia. Poderá andar de cadeira de rodas. Sonhos.

04 de outubro. Seu pai faz churrasco de pão. Faz mais de duas semanas que vc não vai lá. Passa no mercado compra tremoço e azeitona preta. A família está quase toda lá. Tem churrasco de sardinha, de salmão, de salsicha, de pão. Vc corre pra lá e pra cá. Quer ficar ao lado do seu pai, quer ficar junto do seu avô, quer brincar com o gato, com o cachorro e com a sua priminha. Euforia. Faz sol. Vc ouve uma ou duas das velhas histórias do seu avô. Leva azeitona pra ele. Tremoço. Cerveja preta. Sardinha. Tomate. Lazanha de beringela. Cai a tarde. Beijo de despedida no seu vozinho. Gratidão.

10 de outubro. Vc pensa em levar o vô na praia. Chove. Vc não sai de casa.

11 de outubro. Vc dorme o dia todo e então é tarde demais para ir à praia. Fazia sol. Mas é tarde demais.

12 de outubro. Chove. Vc pensa em passar lá para ver como ele está. Mas chove. A preguiça te vence. Consciência de que deveria ter passado lá pelo menos um dia. Vc se desculpa porque sabe que no outro final de semana é seu dia de ficar lá.

14 de outubro. Seu pai te manda um sms. Levando o vô no hospital. Vc lê cinco horas depois. Liga. Internação, pneumonia, saturação em 70. Pai confiante na melhora vai pra casa e te deixa confiante também. Depois do trabalho, vc vai ao hospital. Ele, com um monitor que apita e não mostra os números, olha pra você e balança os ombros. Não dá pra entender bem o que ele fala por causa da máscara. Ele pede uma foto. Vc não entende, mas tira e mostra. Ele vê e balança os ombros. A máquina faz barulho, não dá pra ouvir a TV, que vira outra máquina de barulho. Vc não segura a mão dele, não sei porquê. Vc coloca a mão sobre o ombro dele pra dizer que está ali. Ele pede pra tirar: o peso da sua mão repousando é muito pra ele. Vc coloca a mão no braço. Idem. Vc passa a noite lá. Ele diz para a enfermeira que o medica "essa é minha neta". Ele sente dor. Vc avisa. As enfermeiras dão remédio. A dor não passa. Vc passa a vigiar o sobe e desce do peito obssessivamente.

15 de outubro. A médica passa de manhã, com cara de pouca esperança e muita preocupação. Ele se comunica mal. Reclama de dor nas costas. Vc espera o café da manhã e reza pra alguém chegar logo. Vc quer sair dali correndo. Vc não quer sair dali. Vc quer que haja algo a ser feito. Nove horas. O café chegou. Ele pede queijo. Não tem. Toma meia xícara de café com leite, não come nada. Vc precisa ir e sai minutos antes da medicação. A despedida é rápida. Um aperto da mão no ombro porque vc não alcança a cama para beijá-lo. Deixa a promessa de que a filha dele chegará logo. Fora dali o nome da sensação é medo, vergonha e ignorância. Um medo aterrorizador de que ele morra sozinho só porque vc quer dormir um pouco antes de trabalhar. Vergonha por fazer tão pouco, por assistir alguém tão querido perdendo pouco a pouco tudo o que se é. O corpo, a comunicação, a dignidade. E a ignorância em essência. Não saber e pensar que sabe. Depois do trabalho vc vai ao cinema. Em parte pra não voltar pra casa, em parte porque isso deu certo da última vez. Agora vc sente raiva. De tudo, de todos. Antes de dormir vc pede a todos os deuses, todos os santos e a todos os mitos que seu avô pare de sentir dor, que tenha conforto e dignidade. Vc pede desculpas por não ser humilde o suficiente para pedir o melhor pra ele e assume a responsabiliade de pedir que ele descanse. Que não seja pra ele melhorar e continuar sofrendo aos poucos. Vc dorme enquanto reza e chora.

16 de outubro. O telefone toca. É seu tio. Medo. Você não atende. O telefone toca. É seu pai. Medo. Você tem que atender. A tecnologia faz sua parte. Estão todos se falando ao telefone. Todos os filhos e você, o mais velho dos netos. A médica disse que o remédio não está fazendo efeito. Ao badalar da meia noite fará 48 horas e, se nada mudar, terão que escolher entre o conforto do quarto e a vida a qualquer preço da UTI. Discussão. Todos falam ao mesmo tempo. Sua tia começa a descrever a noite de dor dele e desespero dela. Fica combinado que todos se encontrarão de noite no hospital. Telefone desligado. Vc pensa que deveria ir agora ao hospital. Mas não vai.

16 de outubro, 17h15. Vc vê que seu tio ligou. Vc retorna pra ele. A frase é "o vô parou".

A adrenalina sobe para o cérebro, mas a memória falha. Você foge, correndo, para a razão. Providências, coisas a fazer. É você quem vai dizer pra sua tia, pra sua irmã, pro seu irmão. Conta pra sua chefe. Termina de fazer coisas as coisas do trabalho, adrenalina que não pára. Sai de lá correndo, atravessa a passarela correndo, entra no primeiro ônibus que passa. Precisa avisar seus amigos "meu avô está a cruzar o grande rio". Não consegue parar de pensar nas moedas. Quer que ninguém saiba. Quer que todos saibam. Chora quando desce do ônibus. Seca as lágrimas na esquina do hospital. Sorri ao abraçar seu tio. Substâncias químicas desconhecidas te fazem racional, calma, prática, quase cruel. Você ouve como tudo se passou pela primeira vez. Ouvirá ainda mais duas vezes. Maneja o celular com a destreza de um espadachim. De repente, você está numa sala ao lado do seu tio. Ele não consegue parar de olhar os caixões. Você não quer vê-los. Escolhe-se hora e local. Escolhe-se o caixão, encomenda-se as flores. Caminha-se de volta ao hospital. Agora é sua tia quem chega. A adrenalina dela age na fala, o maior legado da família, além da teimosia. Pouco tempo depois, seu pai chega. Você perscruta o rosto dele procurando dor. Graças a deus, não encontra. Você não vai precisar abraçá-lo, não vai afogar toda a racionalidade que te salva.

A noite corre. Lugares a ir, coisas a fazer, pessoas a encarar. Você vê seu avô no necrotério, terminando de ser vestido. Sem caixão, sem velas, sem flores. E é só o corpo. Ele mesmo não está lá, mas é como se estivesse e como há muito tempo não estava. Ali, sem a expressão de dor, usando calça e camisa, sem a perna dobrada, sem cheiro nenhum, parecia que o corpo dele era dele novamente e que, assim sim, poderia abandoná-lo."



Eu nunca tinha visto um corpo sendo colocado no caixão. Nós, sem nós mesmo, somos mais moles que um boneco. Mesmo com cuidado, o corpo cai dentro do caixão, e o barulho é o de um boneco de pano muito pesado. A pele é amarela. As mãos também. Sem a respiração, é impossível pensar que há ali mais que um corpo. O pouco de espiritismo que sobrou em mim, me fazia sentir que ele estava ali perto, ao lado dele mesmo. Minha tia falava com ele como se ele estivesse vivo "está tudo bem, pai, agora você não vai mais sentir dor". "Eu vou junto com você.", disse ela. "Não toda a viagem", disse eu. Eu queria pegar a mão dele, mas eu não podia pegar aquela mão, porque aquela estava morta e não era dele.

No caixão colocaram cravos brancos e rosas vermelhas. Ficou bonito. Minha tia pôs no bolso do paletó uma foto antiga, de quando ela era muito pequena e estavam todos juntos no sítio do interior. Até o cavalo. Meu pai trouxe imagens de jesus e de nossa senhora. Escolhi o Jesus mais feliz e o Santa menos triste. A santa ficou nas mãos, o Jesus, no peito. Rezamos porque é a única coisa que ainda se pode fazer. Senti falta de ter fé, porque diferente de quase todo mundo ali, eu não sabia o que ia acontecer com ele agora. Não sabia nem se "ele" ainda existia de alguma forma. Amigos e conhecidos chegaram em profusão. Eu não sabia, mas isso é importante. Distrai a nossa dor, alimenta lembranças alegres, nos deixa livres para cair por sabemos que haverá quem ajude a levantar. Minha irmão fez a última preleção antes de fechar o caixão. Depois foi feito o Pai Nosso, o Ave Maria e uma pequena prece que ele mesmo nos ensinou e eu, confesso, não sabia que lembrava: "Con dios me deito, con Dios me llevanto. Con a Virge Maria y el Espírito Santo. En esa cama hay cuatro angeles, un en cada canto, que dicem, vá, descansa no temas ninguna cosa."

No cemitério, chovia muito. O buraco era fundo. No fim, de uma forma que eu não sei explicar, eu nos vi de costas. A cova aberta, o coveiro dentro colocando o caixão do meu avô e mostrando a caixinha com os ossos da minha avó que fôra exumada no mesmo dia porque não tinha vaga no túmulo. Ao lado, todos juntos, um segurando o outro por medo de que escorregasse, eu, meu pai, meu irmão, meu primo e minha tia a assistir a sepultura sendo fechada por placas com pinceladas de cimento e muita terra por cima. A última fotografia de que meu avô participaria.

Não ficou remorso, nem culpa. Eu os procurei incansavelmente dentro de mim, e não os tenho. A saudade que me abala é a saudade do passado, sem vontade nem desejo. A única coisa que me dói é o medo que sinto por ele. Um medo que só existe porque não tenho nenhuma fé religiosa e verdadeira que me console. Tenho medo que ele esteja sozinho sem entender o que as pessoas dizem e sem ninguém para traduzir. Tenho medo que ele esteja em algum lugar horrível pagando expurgando pecados ou coisa assim. Tenho medo que esteja sofrendo por teimar algo que não é, sei lá, real. E a única coisa que eu sinto agora, o tempo todo, é um enorme e profundo vazio.




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